O Arrebol Espírita

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

UM DIA PARA SEMPRE - Depoimento Pessoal.



Confesso que, sem sombra de dúvida, nasci um forte candidato ao ateísmo. Sou extremamente sistemático em minhas crenças. Para que eu creia em algo, é necessário que isso se sustente em bases sólidas, com argumentos claros e precisos, respaldados pela lógica e pela razão, sem qualquer vestígio de dúvida; uma verdade diante da qual tudo se curve.
Jamais acreditaria em um Deus nascido pura e simplesmente da boca humana, como qualquer personagem alegórico — Papai Noel, Polichinelo, mula sem cabeça, bicho-papão — com a única diferença de que, em seu favor, lhe atribuem honras e supremacia, ainda que lhe devotem um respeito duvidoso. Seus porta-vozes, em sua maioria, sempre me pareceram confusos, contraditórios e suspeitos, mais inclinados a militar em causa própria do que a servir à verdade.
Quanto à Bíblia Sagrada, somente muito tempo depois descobri que ela é, paradoxalmente, uma das mais perfeitas provas da existência de Deus — isso apenas após eu me despojar do orgulho, da soberba e da pretensão de querer que tudo se explicasse apenas por si mesmo.
Recordo-me, como se fosse hoje, da maior e mais importante experiência de toda a minha vida. E afirmo com absoluta segurança: foi a mais bela, incomparável e de valor inestimável.
O episódio que narro a seguir ocorreu na cidade de Bragança, município distante cerca de 220 quilômetros de Belém, capital do estado do Pará, minha terra natal. Eu estava acompanhado de minha digníssima mãe, em uma viagem de cortesia a parentes. Hospedamo-nos na casa de uma prima sua, que retribuía, assim, as acolhidas que minha mãe lhe ofertara quando ela se deslocava para a capital.
Certa noite, nos encontrava na sala de visitas assistindo à última novela noturna, quando recebi ordens de minha genitora para realizar a higiene bucal e, em seguida, recolher-me ao leito. Eram aproximadamente 21 horas. Em obediência, levantei-me e segui em direção ao banheiro. Ali percebi que não havia água. Dirigi-me então à pia da cozinha, onde constatei o mesmo problema, consequência de falhas no abastecimento público.
Insisti. Abri a porta dos fundos da casa e segui para uma pia externa, onde costumeiramente ficavam alguns vasilhames com água. Enquanto realizava a higiene, algo chamou minha atenção. Aos fundos de uma casa inabitada havia uma figura de forma humana, mas não com as mesmas propriedades de um corpo comum. Assemelhavasse mais a uma sombra branca, enevoada, como o reflexo do luar sobre uma superfície escura. Estava sentada em posição semelhante à de Buda.
Fitei-a por alguns instantes. A distância — algo em torno de cem metros — ainda me causava dúvidas quanto à natureza daquela visão. Cheguei a cogitar tratar-se de um lençol estendido, hipótese logo descartada, pois ali não residia ninguém. Movido pela curiosidade infantil, resolvi aproximar-me.
Entre mim e aquela figura havia um quintal conjugado, arborizado, coberto por mangueiras, ajuruzeiros, abricoteiros, cajaraneiras e outras fruteiras típicas da região amazônica. A noite era escura, mas as luzes das casas vizinhas e a iluminação de uma rua paralela orientavam meus passos.
Avancei lentamente. A cada metro percorrido, convencia-me de que se tratava de algo animado, com forma humana, mas não humano. Com a aproximação, notei pequenos movimentos corporais. Parecia observar-me, sem demonstrar incômodo com a minha presença. Sobre a cabeça, trazia um adorno semelhante a um chapéu de argamassa, como os usados por peões de boiada.
Quando alcancei cerca de cinquenta metros de distância, a figura, de maneira impressionante, em uma velocidade quase imperceptível — num simples abrir e fechar de olhos —, ergueu-se à direita do local onde estava sentada. Não tocava o chão: flutuava entre quarenta e sessenta centímetros acima do solo.
Esse movimento espetacular paralisou-me. Contudo, não por medo. Não senti medo algum. Ao contrário, estava maravilhado com o que via. Era como se, apesar de criança, eu intuísse que aquela visão me era concedida como um privilégio.
Impulsionado por uma curiosidade ainda maior, continuei. Queria tocá-lo, falar-lhe, mas não foi possível. Quando estava a cerca de dez metros, a figura girou o corpo para a esquerda e, como quem sobe uma rampa — sem dobrar os joelhos —, deu três longos passos em diagonal em direção à copa de um pé de abricó. Em seguida, desintegrou-se como em um feixe de luz e desapareceu.
Naquele exato instante nasceram minha crença e a certeza da existência de todos os personagens possíveis — reais ou alegóricos: Deus, Diabo, bruxas, extraterrestres, super-heróis e todas as figuras que habitam o imaginário infantil tornaram-se, para mim, reais.
Mas tudo tem sua razão de ser, e Deus nada faz de forma imperfeita. Foi necessário o tempo — e outras experiências — para que a razão me depurasse, permitindo-me separar o falso do verdadeiro, o certo do errado, o real do ilusório, o correto do incorreto.
E foi assim que um provável ateu se tornou uma testemunha ocular da existência de Deus e do mundo extra corpóreo.


“Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”

(Eclesiastes c3v1)

***
PS. A gravura que ladeia minha imagem, para ilustrar esta postagem, é de um espírito conhecido como Marujo e foi compilada do livro "O Trabalho dos Mortos (o livro do João)", escrito pelo irmão Nogueira de Faria; que narra os fenômenos de aparições na casa da família Prado, no começo do século passado, na cidade de Belém, Estado do Pará - Brasil.




2 comentários:

  1. Que legal amigo, a vida te trouxe essa experiência, pois você ja estava preparado para compreende-la!!!

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  2. Exatamente meu querido, como dizia nosso irmão Chico Xavier: "a vida é perfeita naquilo que tem de ser."

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