O Arrebol Espírita

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

ERA UM ESPÍRITO, MAS NÃO ERA UM FANTASMA




Na noite passada, por volta das 23 horas, eu me encontrava lendo em um banco do canteiro central da avenida Boulevard, cidade de Manaus, quando ouvi alguém gritar:
— “Vocês pensam que não estou vendo vocês!?”
Por essa razão, ergui os olhos em direção à parada de ônibus do outro lado da avenida, o local mais próximo onde havia pessoas. Foi então que vi um homem jovem, barbado, vestindo apenas bermuda e descalço, gritando na direção de um casal que ali se encontrava.
Entretanto, era como se alguém tivesse apertado a “tecla mudo”. Eu via claramente o homem continuar gritando, proferindo impropérios, mas já não ouvia som algum. Foi nesse instante que percebi algo ainda mais estranho: nem o casal, nem outros três passageiros que aguardavam o coletivo pareciam dar-se conta do que estava acontecendo. Todos permaneciam completamente alheios à sua presença.
Concluí, então, que se tratava de um espírito materializado, visível apenas para mim.
Por fim, decidi aproximar-me para tentar ajudá-lo, no sagrado exercício da caridade, buscando orientá-lo. Contudo, apenas ao formular essa intenção, o homem voltou-se para mim com fúria, afastou-se rapidamente e foi para trás de um poste de iluminação pública, onde desapareceu.
Esse fato — o segundo ocorrido em menos de um mês — levou-me a profunda reflexão. Fez-me concluir que, se pertenço ao grupo dos raros que possuem a faculdade de ver espíritos materializados, também pertenço ao contingente daqueles que ainda não possuem a faculdade de ver a Deus. Ou seja, não vejo mais do que os outros,  mas vejo algo que me revela o quanto ainda me falta ver.

* Nota do autor: Ver o invisível!

Há experiências que não nos transformam pelo que revelam, mas pelo que delimitam. Ver um espírito materializado — se assim se pode dizer — não é apenas um fenômeno extraordinário; é, sobretudo, uma fronteira da percepção humana.
O episódio ocorrido naquela noite, em plena via pública, não se caracteriza pelo medo, tampouco pelo espanto. O que mais impressiona não é o grito, nem a figura em si, mas a completa indiferença das demais pessoas. Enquanto um homem vociferava impropérios, visível aos meus olhos, todos ao redor permaneciam mergulhados em uma normalidade intacta. Era como se duas realidades distintas ocupassem o mesmo espaço sem jamais se tocarem.
Essa dissociação revela algo profundo: o mundo não é percebido igualmente por todos. A visão, nesse caso, não é apenas um ato físico, mas uma faculdade espiritual. Alguns veem, outros não — e nenhum dos dois grupos está, necessariamente, certo ou errado.
O impulso de ajudar, de exercer a caridade, surge quase como dever moral diante do sofrimento alheio, ainda que esse sofrimento pertença a um plano que a maioria desconhece. Contudo, a reação hostil da entidade lembra que nem toda ajuda é aceita, e que o livre-arbítrio persiste mesmo além da matéria.
A reflexão final talvez seja a mais contundente: ver espíritos não equivale a ver Deus. Pelo contrário, evidencia o quanto ainda estamos presos às manifestações intermediárias da existência. Se há uma hierarquia da visão espiritual, enxergar o invisível mais próximo não significa alcançar o invisível absoluto.
Ver espíritos pode ser uma faculdade.
Ver Deus, talvez, seja ainda um estado.
***

(a) Ronaldo Costa (O Arrebol Espírita)


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