Na noite passada, por volta das 23 horas, eu me encontrava lendo em um banco do canteiro central da avenida Boulevard, cidade de Manaus, quando ouvi alguém gritar:
— “Vocês pensam que não estou vendo vocês!?”
Por essa razão, ergui os olhos em direção à parada de ônibus do outro lado da avenida, o local mais próximo onde havia pessoas. Foi então que vi um homem jovem, barbado, vestindo apenas bermuda e descalço, gritando na direção de um casal que ali se encontrava.
Entretanto, era como se alguém tivesse apertado a “tecla mudo”. Eu via claramente o homem continuar gritando, proferindo impropérios, mas já não ouvia som algum. Foi nesse instante que percebi algo ainda mais estranho: nem o casal, nem outros três passageiros que aguardavam o coletivo pareciam dar-se conta do que estava acontecendo. Todos permaneciam completamente alheios à sua presença.
Concluí, então, que se tratava de um espírito materializado, visível apenas para mim.
Por fim, decidi aproximar-me para tentar ajudá-lo, no sagrado exercício da caridade, buscando orientá-lo. Contudo, apenas ao formular essa intenção, o homem voltou-se para mim com fúria, afastou-se rapidamente e foi para trás de um poste de iluminação pública, onde desapareceu.
Esse fato — o segundo ocorrido em menos de um mês — levou-me a profunda reflexão. Fez-me concluir que, se pertenço ao grupo dos raros que possuem a faculdade de ver espíritos materializados, também pertenço ao contingente daqueles que ainda não possuem a faculdade de ver a Deus. Ou seja, não vejo mais do que os outros, mas vejo algo que me revela o quanto ainda me falta ver.
* Nota do autor: Ver o invisível!
Há experiências que não nos transformam pelo que revelam, mas pelo que delimitam. Ver um espírito materializado — se assim se pode dizer — não é apenas um fenômeno extraordinário; é, sobretudo, uma fronteira da percepção humana.
O episódio ocorrido naquela noite, em plena via pública, não se caracteriza pelo medo, tampouco pelo espanto. O que mais impressiona não é o grito, nem a figura em si, mas a completa indiferença das demais pessoas. Enquanto um homem vociferava impropérios, visível aos meus olhos, todos ao redor permaneciam mergulhados em uma normalidade intacta. Era como se duas realidades distintas ocupassem o mesmo espaço sem jamais se tocarem.
Essa dissociação revela algo profundo: o mundo não é percebido igualmente por todos. A visão, nesse caso, não é apenas um ato físico, mas uma faculdade espiritual. Alguns veem, outros não — e nenhum dos dois grupos está, necessariamente, certo ou errado.
O impulso de ajudar, de exercer a caridade, surge quase como dever moral diante do sofrimento alheio, ainda que esse sofrimento pertença a um plano que a maioria desconhece. Contudo, a reação hostil da entidade lembra que nem toda ajuda é aceita, e que o livre-arbítrio persiste mesmo além da matéria.
A reflexão final talvez seja a mais contundente: ver espíritos não equivale a ver Deus. Pelo contrário, evidencia o quanto ainda estamos presos às manifestações intermediárias da existência. Se há uma hierarquia da visão espiritual, enxergar o invisível mais próximo não significa alcançar o invisível absoluto.
Ver espíritos pode ser uma faculdade.
Ver Deus, talvez, seja ainda um estado.
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(a) Ronaldo Costa (O Arrebol Espírita)
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