O Arrebol Espírita

quarta-feira, 14 de maio de 2014

TRANSFORMAÇÃO


Desencantado, quanto à própria vida,
Resolvera, agitado,
Colocar todo escrúpulo de lado
E fazer-se suicida.

Caíra a noite muito fria
E ele pensava:
De que lhe valeria
Tanta posse que, há muito, desfrutava?
De que lhe serviria
A bela moradia,
Tocada de supremo reconforto,
Se trazia no peito
O coração cansado e semi-morto?

Vivia desgostoso e insatisfeito...

A esposa o abandonara
Com sinais evidentes de loucura
E arrancara-lhe a filha
Que lhe era tão cara
Para o campo de sombra e de aventura...

Dizendo adeus aos mimos familiares,
Deixou o próprio carro e demandou a rua;
Queria caminhar com os seus próprios pesares
E seguiu, sob a noite fria e escura,
No intuito de alcançar antiga ponte,
De seu conhecimento,
Que se lhe erguia agora, em desafio
Para a liquidação de todo sofrimento
Ante a morte no rio...

Não havia avançado muitos metros,
Quando ouviu na calçada
A voz de pobre mãe agoniada:
- Senhor, salve meu filho,
Por amor a Jesus, e lhe rogo socorro...
Parou, vendo a mulher e a criança doente,
Tendo a pedra por leito e a marquise por forro...
Tateou o pequeno
Que lhe enviava o olhar quase sem brilho
E entendeu num instante
Que o menino lutava contra a morte,
Sob a pneumonia fulminante.

Cedeu farta moeda à mãe aflita
E depois de chamar por táxi vizinho,
Instalou mãe e filho com carinho
No carro que os levasse ao próximo hospital.

Que lhe importava agora o ouro da carteira,
Se admitia estar na hora derradeira?

Não dera muitos passos
E encontrou um ancião deitado a um canto,
A lhe pedir em voz recortada de pranto:
-Uma esmola, senhor! Um café que me aqueça!...
Deus lhe dará em dobro o bem que me fizer...

Entregou ao pedinte uma certa quantia
E ao notar-lhe a alegria,
Indagou espontâneo: - O Senhor tem família?
E o velhinho falou, de olhar vago e incomum:
- Esse luxo, hoje em dia, não me cabe,
Não sei se o senhor sabe
Que um mendigo não tem parente algum.
E pondo-se de pé,
A erguer-se devagar,
Arrastou-se, pensando no café,
À procura de um bar...

O nosso companheiro
Continuou a caminhar;
Surgia a ponte à vista,
Mas na parte de cima havia muita gente
Dedicada ao lazer.
Ele, surpreendido e descontente,
Ágil, pôs-se a descer,
Buscando a solidão das grandes águas
Para a extinção de suas próprias mágoas...

Mas nisso, foi detido,
Por um colega conhecido
Que lhe informou com gentileza:
- Amigo, mais prudência,
Há sob a ponte enorme delinquência;
Dizem por aí por baixo há cenas revoltantes
De foragidos e assaltantes
E sei que sob a guarda de uma bruxa
Moram juntos aí, dois terríveis bandidos,
Claramente escondidos...

O interpelado agradeceu
E disfarçou dizendo estar ali somente
À busca de um parente.

Atingindo, porém, o local que buscava
Viu tristes mãos ao seio aconchegando
Criancinhas em bando
A chorarem com frio...
Já não mais contemplou a vastidão do rio
E passou a estudar
O apoio que lhes era necessário.
Examinando o ambiente
Divisou de repente
Um pequeno recanto solitário

Qual barraca formada de improviso...
Avançou para lá, mas tristonha senhora
Disse-lhe em alta voz: - Senhor, não se aproxime!...
Ele obtemperou:
- Corre-se aqui o risco de algum crime?
A velhinha, no entanto, respondeu:
- Não, senhor!... É que eu
Tenho comigo aqui meus dois filhos leprosos,
Quis somente avisá-lo...
O senhor, entretanto, pode vê-los.

Ele fitou os jovens deformados,
As feridas em sangue entre os cabelos,
A pele em chaga, as magras mãos
A sorrirem na prova que sem dedos os feria
Demonstrando, decerto,
A valorização da própria luta,
No fel do dia-a-dia.

Ah!...” – refletiu – “seriam eles
Os estranhos segredos
Que se ocultavam sob a ponte antiga,
Ante os cuidados da mendiga...”




Ao sentir, de tão perto, o sofrimento,
Mudou-se-lhe, de chofre, o pensamento...

Medita, sob a angústia que o invade:
Por que morrer, chorando a esposa e a filha,
Se elas duas
Apenas lhe pediam a liberdade?
Por que aniquilar-se, inutilmente,
Se podia amparar a tanta gente?
Por que menosprezar a vida alheia?”

Então, ajoelhou-se sob a areia,
Orando a soluçar...
O rio parecia acompanhar
Os gemidos que o homem desferia...
E, como a expulsar de si, em tremenda agonia,
A própria dor que atingira apogeus,
Relegou o suicídio às sombras do passado
E gritou, renovado:
- Obrigado, meu Deus!...


***
Espírito: Hilário Silva
Médiuns: Chico Xavier e Waldo Vieira
Livro: Almas em Desfile


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