O Arrebol Espírita

domingo, 20 de julho de 2014

EXPLICANDO





Não, meu amigo. Quando me desvencilhei do corpo físico, há quase vinte anos, o título de “espírita” não me classificava as convicções.
Como acontece a muita gente boa, acreditava mais no que via com os meus olhos e tateava com as minhas mãos. Lia o Evangelho de Jesus e compulsava as impressões de vários experimentadores da sobrevivência ; entretanto, sem objetivos sérios de estudo e sim na extravagância das gralhas da inteligência que vão à lavoura do espírito, gritando inutilmente e bicando aqui e ali para perturbar o crescimento das plantas e prejudicar-lhes a produção.
Era um homem demasiadamente ocupado com a Terra para devotar-me às revelações do Céu.
Meus pensamentos jaziam tão vigorosamente encarnados nas preocupações mundanas, que nem a força hercúlea da enfermidade conseguia deslocar-me para as visões íntimas da vida superior.
Ilhado na fortaleza de minha pretensa superioridade intelectual, ria ou chorava nas letras, acreditando, porém, que a fé seria apanágio das criaturas ignorantes e simples, indigna dos cérebros mergulhados em maiores cogitações.
Situava-me entre a dúvida e a ironia, quando a morte, na condição de meirinho da Justiça
Divina, me intimou a comparecer no tribunal da realidade, mais cedo que eu supunha, e somente então comecei a interessar-me pelo gigantesco esforço dos homens de boa
vontade que, nos mais diversos climas do Planeta, se dedicam hoje à solução dos enigmas inquietantes do destino e do ser.
O túmulo não é apenas a porta de cinza.
Morrer não é terminar.
E, banhado ao clarão da verdade, por mercê de Deus, incorporei-me à imensa caravana dos que despertam e trabalham na recuperação de si mesmos.
Não estranhe, pois, se continuo em minha faina de escritor humilde, tentando nortear as minhas faculdades no rumo do bem.
É o que posso fazer, porquanto não disponho de especialização adequada para outro mister.
Você pergunta porque me consagro presentemente ao Espiritismo com Jesus, quando fui intérprete da literatura fescenina, lançando vários livros picantes, e político apaixonado na corrente partidária a que me filiei, como defensor dos interesses de minha terra.
Creia que, realmente, errei muito.
Nem sempre consegui equilibrar-me na corda bamba das convenções terrestres e, muita vez, cai escandalosamente em pleno espetáculo, à frente daqueles que me aplaudiam ou me apupavam.
Entretanto, a morte constrangeu-me ao reajustamento íntimo.
Acordei para um dia novo e procuro comunicar-me com os que ainda se encontram nas sombras da noite.
Admito que poderia fazer coisa pior.
Se me deixasse vencer pela tentação, efetivamente integraria a vasta fileira dos Espíritos obstinados na perversidade que lhes é própria, cavalgando os ombros de meus desafetos.
Algo, porém, amadureceu dentro de mim.
Aquilo que me trazia prazer causa-me agora repugnância.
A experiência mostrou-me a parte inútil de minha vida e, por acréscimo de bondade do Senhor, voltei ao campo de minha própria sementeira, não mais para deslustrar o serviço da Natureza, mas para colaborar com o bem, a favor de mim mesmo.
É por essa razão que ainda estou escrevendo...
Convença-se, contudo, de que não possuo mais no vaso do coração a tinta escura do sarcasmo e esteja certo de que me sinto excessivamente distante de qualquer milagre de sublimação.
Sou apenas um homem... desencarnado, com o sadio propósito de regenerar-me.
Depreenderá você, portanto, desta confissão, que em hipótese alguma poderia inculcar-me por guia espiritual dos meus semelhantes.
A sepultura não converte a carne que ela engole, voraz, em manto de santidade.
Somos depois da morte o que fomos, e muita gente, que anda ai mascarada, aqui encontra recursos para ser mais cruel.
Quanto a mim, vendo graças a Deus, por achar-me na condição de pecador arrependido, esmurrando o próprio peito e clamando – "mea culpa, mea culpa..."
Nosso orientador real é o Cristo, Nosso Senhor.
Sem Ele, sem a nossa aplicação aos seus ensinos e exemplos, respiraremos sempre na
antiga cegueira que nos arroja aos despenhadeiros do infortúnio.
Procuremo-lo, pois, e ajudemo-nos uns aos outros, e você, que com tanta generosidade se interessa pela minha renovação, não se esqueça das oito letras de luz que brilham sobre o seu nome. Ser “espírita” é configurar com Jesus o apostolado da redenção. E que você prossiga com o Mestre, amando e servindo, no constante incentivo ao bem, é tudo de mais nobre que lhe posso desejar.

***
Espírito: Irmão X
Médium: Chico Xavier
Livro: Cartas e Crônicas


(a) RONALDO COSTA (O Arrebol Espírita)

CARTA DE UM MORTO


Pede-me você notícias do cemitério nas comemorações de Finados. E como tenho em mãos a carta de um amigo, hoje na Espiritualidade, endereçada a outro amigo que ainda se encontra na Terra, acerca do assunto, dou-lhe a conhecer, com permissão dele, a missiva que transcrevo, sem qualquer referência a nomes, para deixar-lhe a beleza livre das notas pessoais.
Eis o texto em sua feição pura e simples:
Meu caro, você não pode imaginar o que seja entregar à terra a carcaça hirta no dia dois de Novembro.
Verdadeira tragédia para o morto inexperiente.
Lembrar-se-á você de que o enterro de meu velho corpo, corroído pela doença, realizou-se ao crepúsculo, quando a necrópole enfeitada parecia uma casa em festa.
Achava-me tristemente instalado no coche fúnebre, montando guarda aos meus restos, refletindo na miserabilidade da vida humana...
Contemplando de longe minha mulher e meus filhos, que choravam discretamente num largo automóvel de aluguel, meditava naquele antigo aponta-mento de Salomão – «vaidade das vaidades, tudo é vaidade» –, quando, à entrada do cemitério, fui desalojado de improviso.
Na multidão irrequieta dos vivos na carne, vinha a massa enorme dos vivos de outra
natureza. Eram desencarnados às centenas, que me apalpavam curiosos, entre o sarcasmo e a comiseração.
Alguns me dirigiam indagações indiscretas, enquanto outros me deploravam a sorte.
Com muita dificuldade, segui o ataúde que me transportava o esqueleto imóvel e, em vão, tentei aconchegar-me à esposa em lágrimas.
Mal pude ouvir a prece que alguns amigos me consagravam, porque, de repente, a onda tumultuária me arrebatou ao circulo mais íntimo.
Debalde procurei regressar à quadra humilde em que me situaram a sombra do que eu fora no mundo... Os visitantes terrestres daquela mansão, pertencente aos supostos finados, traziam consigo imensa turba de almas sofredoras e revoltadas, perfeitamente jungidas a eles mesmos.
Muitos desses Espíritos, agrilhoados aos nossos companheiros humanos, gritavam ao pé das tumbas, contando os crimes ocultos que os haviam arremessado à vala escura da morte, outros traziam nas mãos documentos acusadores, clamando contra a insânia de parentes ou contra a venalidade de tribunais que lhes haviam alterado as disposições e desejos.
Pais bradavam contra os filhos. Filhos protestavam contra os pais.
Muitas almas, principalmente aquelas cujos despojos se localizam nos túmulos de alto preço, penetravam a intimidade do sepulcro e, de lá, desferiam gemidos e soluços aterradores, buscando inutilmente levantar os próprios ossos, no intuito de proclamar aos entes queridos verdades que o tímpano humano detesta ouvir".
Muita gente desencarnada falava acerca de títulos e depósitos financeiros perdidos nos bancos, de terras desaproveitadas, de casas esquecidas, de objetos de valor e obras de arte que lhes haviam escapado às mãos, agora vazias e sequiosas de posse material.
Mulheres desgrenhadas clamavam vingança contra homens cruéis, e homens carrancudos e inquietos vociferavam contra mulheres insensatas e delinqüentes.
Talvez porque ainda trouxesse comigo o cheiro do corpo físico, muitos me tinham por vivo ainda na Terra, capaz de auxiliá-los na solução dos problemas que lhes escaldavam a mente, e despejavam sobre mim alegações e queixas, libelos e testemunhos.
Observei que os médicos, os padres e os juízes são as pessoas mais discutidas e criticadas aqui, em razão dos votos e promessas, socorros e testamentos, nos quais nem sempre corresponderam à expectativa dos trespassados.
Em muitas ocasiões, ouvi de amigos espíritas a afirmação de que há sempre muitos mortos obsidiando os vivos, mas, registrando biografias e narrações, escutando choro e praga, tanto quanto vendo o retrato real de muitos, creio hoje que há mais vivos flagelando os mortos, algemando-os aos desvarios e paixões da carne, pelo menosprezo com que lhes tratam a memória e pela hipocrisia com que lhes visitam as sepulturas.
Tamanhos foram meus obstáculos, que não mais consegui rever os familiares naquelas horas solenes para a minha incerteza de recém-vindo, e, somente quando os homens e as mulheres, quase todos protocolares e indiferentes, se retiraram, é que as almas terrivelmente atormentadas e infelizes esvaziaram o recinto, deixando na retaguarda tão somente nós outros, os libertos em dificuldade pacífica, e fazendo-me perceber que o tumulto no lar dos mortos era uma simples consequência da perturbação reinante no lar dos vivos.
Apaziguado o ambiente, o cemitério pareceu-me um ninho claro e acolhedor, em que me não faltaram braços amigos, respondendo-me às súplicas, e a cidade, em torno, figurou-se-me, então, vasta necrópole, povoada de mausoléus e de cruzes, nos quais os espíritos encarnados e desencarnados vivem o angustioso drama da morte moral, em pavorosos compromissos da sombra.
Como vê, enquanto a Humanidade não se habilitar para o respeito à vida eterna, é muito desagradável embarcar da Terra para o Além, no dia dedicado por ela ao culto dos mortos que lhe são simpáticos e antipáticos.
Peça a Jesus, desse modo, para que você não venha para cá, num dia dois de Novembro.
Qualquer outra data pode ser útil e valiosa, desde que se desagarre daí, naturalmente, sem qualquer insulto à Lei. Rogue também ao Senhor que, se possível, possa você viajar ao nosso encontro, num dia nublado e chuvoso, porque, em se tratando de sua paz, quanto mais reduzido o séquito no enterro será melhor.
E porque o documento não relaciona outros informes, por minha vez termino também aqui, sem qualquer comentário.

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Espírito: Irmão X
Médium: Chico Xavier
Livro: Cartas e Crônicas

(a) RONALDO COSTA (O Arrebol Espírita​)

MENSAGEM BREVE


Realmente você tem razão quando afirma que o mundo parece modificado e que precisamos imenso desassombro para viver dentro dele.
Os últimos cinquenta anos operaram gigantesca reviravolta nos costumes da Terra. A casa patriarcal que havíamos herdado do século XIX transformou-se no apartamento a dependurar-se nos arranha-céus; a locomotiva enfumaçada é quase uma joia rara de museu à frente do avião que elimina distancia; a gazeta provinciana foi substituída pelos jornais da grande imprensa; e os saraus caseiros desapareceram, ante a invasão do rádio, cuja programação domina o mundo.
O automóvel, o transatlântico, o cinema e a televisão constituem outros tantos fatores de informe rápido, alterando a mente do povo em todos os climas.
E a garantia dos cidadãos? Em quase todos os países há leis de segurança para empregados e patrões, homens, mulheres, jovens e crianças.
Há direito de greve, licença, litígio e descanso remunerado.
Existem capitães da indústria e comércio, acumulando riquezas mágicas de um dia para outro, desde que não soneguem o imposto relativo aos monopólios que dirigem contra a harmonia econômica.
Temos operários desfrutando inexplicável impunidade, na destruição das casas em que trabalham, com a indisciplina protegida em fundamentos legais.
Há jovens amparados na difusão da leviandade e da mentira, sem qualquer constrangimento por parte das forças que administram a vida pública.
Não estamos fazendo pessimismo.
Sabemos que o mundo permanece sob o governo místico das rédeas divinas e não ignoramos que qualquer perturbação é fenômeno passageiro, em função desajusta da própria região onde surge o desequilíbrio.
Com as nossas observações, tão somente nos propomos reconhecer que a criatura humana de nossa época está mais livre e, por isso, mais destacada em si mesma.
Nos grandes períodos de transição, qual o que estamos atravessando, somos como que chamados pela Sabedoria Divina a provar nossa, madureza interior, nossa capacidade de auto direção.
Dai resulta a desordem aparente, em que somos compelidos à revelação da própria individualidade.
Na organização coletiva, no grupo social, na equipe de trabalho ou no reduto domestico, vê-se o homem de hoje obrigado a mostrar-se tal qual é, classificando-se, de imediato, pela própria conduta.
As dissensões, os conflitos, as lutas e os embates de todas as procedências oferecem s
impressão de caos, provocando a gritaria dos profetas da decadência, e, por isso mesmo, as almas que não se armaram de fé e que não se sustentaram fiéis às raízes simples da vida
sofrem pavorosos desastres psíquicos, que as situam nos escuros domínios da alienação mental.
Cresce a loucura em todas as direções.
O hospício é a última fronteira dos enfermos do espírito, de vez que se agitam eles em todosos setores de nosso tempo, à maneira de consciências que, impelidas ao autoexame, tentam fugir de si mesmas, humilhadas e estarrecidas.
Em razão disso, creia que o melhor caminho para não cair nas mãos dos psiquiatras é o ajustamento real de nossa personalidade aos princípios cristãos que abraçamos, porque o problema é da alma e não da carne.
Não precisaremos discutir.
A hora atual da Terra é inegavelmente dolorosa, mas a tempestade de hoje passará, como as de ontem.
Refugiemo-nos em Cristo.
O Senhor é a nossa fortaleza.
Se tivermos bastante coragem de viver o Cristianismo em sua feição pura, na condição de solitários carregadores de nossa cruz, poderemos encarar valorosamente a crise e dizer-lhe num sorriso confiante: - «vamos ver quem pode mais».

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Espírito: Irmão X
Médium: Chico Xavier
Livro: Cartas e Crônicas


(a) RONALDO COSTA (O Arrebol Espírita)